Arquivos Mensais: Junho 2007

Creio que o assunto pode parecer ligeiramente (ironia) off-topic para minha primeira crônica aqui. Refiro-me à recente campanha que a Oi, com marketing bastante feliz, lançou alardeando o desbloqueio de seus celulares. Cá entre nós, essa idéia de desbloqueio como algo positivo não é nada nova… mas será que sua aplicação se restringe à briga de grandes empresas por usuários?

Sexo sem bloqueio, terrivelmente perigoso que pode ser, é delicioso. Mais importante do que trepar muito, com várias pessoas ou em várias posições… Mais importante do que marcar no relógio quem demora mais pra gozar, ou quem goza mais vezes… Sexo e putaria não é nada disso! É exploração e experimentação e (também) gozar e se fuder…

Então eu quero deixar claro que não estou falando (só) de promiscuidade, mas de uma espécie de comportamento promíscuo “psicológico”. Dizendo de uma forma melhor: o que limita nossa suscetibilidade ao prazer? Lembro-me de assistir a um programa no National Geographic Channel sobre os comportamentos sexuais de animais. Um desfile de animais homossexuais, macacos promíscuos, cobras travestis e, no final, a mais pervertida conduta sexual: a monogamia.

Cheguei ao ponto que queria: experimentar o bloqueio também não é uma forma de sentir uma intensidade? É muito clara pra nós a intensidade de novos encontros, do desbloqueio… a abertura e riqueza de sensações que tomam os sentidos de assalto. Mas acho que encontrei a explicação pra popularidade da monogamia, do namoro, do casamento. É como estar em uma posição desconfortável e forçar a barra até gozar muito. Quanto mais demora, mais violento vem, ou pelo menos é nisso que acreditamos.

Foi Foucault quem falou de se fazer um corpo mais sensível ao prazer, mas foi Bergson quem explicou que um mundo é construído por subtração em vez de adição. Por isso a força de um namoro é tão fudida: subtrai, de uma humanidade cheia de gente, todas as pessoas exceto uma, com quem é permitido fazer tudo, ou quase tudo. O bloqueio do iPhone é de dois anos, e eu aposto que o Mister Steve Jobs sabe muito bem como capturar intensidades…

Não estava parado, mas parecia que estava: deitado seminu (só não estava nu, pois nunca tirava suas tatuagens), apoiado sobre os cotovelos, daquele jeito que faz as omoplatas se juntarem, como quando um felino caminha. Mirava seus contornos dentro do negro daqueles olhos que olhava bem de perto. Estava deitado, mas não estava parado. Aliás, quanto mais parado estava, mais absoluto era seu movimento: sua cabeça girava mais rápido quando estava parado.

Naquele momento, não havia necessidade de contar-lhe nada sobre si mesmo, aliás, não havia necessidade nenhuma de dizer-se nada. Simplesmente olhava a si mesmo dentro de seus olhos, e continuava a saltar dentro de sua vertigem. Saltar dentro de dois buracos negros simultaneamente não era coisa pra qualquer um, mas naquele caso os buracos negros não estavam mais girando juntos. Nesse negro não era mais impossível sobreviver, respirar.

Levantou-se para acender um cigarro, e olhou pela janela que dava para o morro. Não estava com vontade de fumar, mas fumava de qualquer forma – e caminhava pelo cômodo -, tentando se esquivar um pouco do que sentia. Queria mas não queria, gostava mas não gostava, fazia mas não devia. “Não devia” era uma sensação física opressora, que constrangia seu corpo. Ora olhava aflito pela janela, vendo as luzes da noite carioca, ora agitava-se passeando pelo cômodo, pelas roupas espalhadas no chão, ora fixava seu olhar sobre o corpo nu que havia dormido, cansado do sexo, sobre o colchão estirado no chão mal cuidado.

Estavam em um barraco como qualquer outro daquela favela: tudo improvisado e sujo, as separações entre os cômodos eram feitos de pedaços de madeira que se acha no lixo, a vista era incomparável. O barraco tinha um telhado ineficaz, que deixava seu interior úmido pelo cair do orvalho da madrugada. Imaginou por um instante onde deviam estar sua esposa, sua família: estava bem protegida? Hoje morava em um bairro decente, apesar de já ter vivido em uma favela como aquela, em um morro como aquele, no convívio diário do crime. Não aceitou constituir família antes de muidar-se da favela, coisa que conseguiu sem ajuda de ninguém, só com o seu próprio estudo e trabalho. Há muito tempo não se misturava mais às pessoas das favelas, havia vencido a pobreza: morava em Belford Roxo agora. Não era uma casa de tijolos, ninguém morava ali; era um barraco a ponto de cair, um lugar afastado, privacidade: estavam apenas os dois ali.

Em Belford Roxo é que devia estar sua família agora: suas duas filhas, o mais velho e sua esposa, todos dormindo seguros em casa. Parou de pensar em casa, quando sua cabeça girou tão forte que precisou se apoiar na lateral da janela, se é que se pode chamar de janela a um buraco numa parede feita de remendos: não devia ter se envolvido com essa gente da favela de novo. Bem que tentou, na primeira vez que viu aquele rapaz, evitar que a coisa se desenrolasse. Tragou o cigarro, soprou a fumaça pela janela, olhou o corpo nu na cama: não evitou coisa alguma, afinal.

Não devia ter se deixado envolver, não devia ter cheirado, não podia continuar ali. Pensava se havia forma limpa de se livrar daquilo tudo. Podia fugir, sumir da favela, torcer para que não fosse reconhecido por nenhum comparsa daquele traficante. Fugir significaria também sair de seu trabalho… não poderia fugir e continuar no mesmo trabalho. Entretanto, não podia simplesmente pegar sua arma – que estava jogada no chão, junto a seu uniforme policial – e eliminar o traficante que lhe atormentava. Deu um trago, sentiu gosto de filtro e tossiu forte. Seu companheiro se ajeitou na cama, e ele acendeu outro cigarro.

Fui de carro, a trabalho, a uma cidade vizinha. Ela também ia pra lá, e me pediu pra buscá-la no aeroporto. Ela não foi lá pra me ver, afinal não éramos mais namorados há alguns meses. Ela invadiu meu espaço quando nos encontramos… eu tenho quase certeza de que não lhe dei nenhum sinal de que suas mãos estavam autorizadas a me tocar. Filha da puta.

Ela me pediu que a deixasse sei lá onde, me falou que me veria mais tarde, me deixou pra trás e foi encontrar seus amiguinhos. Caguei solenemente pra esse “amigos”, caguei pro que ela ia fazer. Afinal, essas desculpas já deixaram de fazer efeito em nós há muito tempo.

Foi ela quem cagou pra mim, quando liguei a ela dizendo que estava livre pra encontrá-la. A puta me disse pra ir passar um tempo com os amigos, e que me ligaria mais tarde. E eu estava espumando de rfaiva quando ela me ligou pra dizer que podia me  encontrar. Eu quase quis deixá-la esperando por mim. Imaginei formas de me vingar sem perder o sexo, mas acabei desistindo. Talvez eu não saiba odiar como ela sabe.

Eu a busquei exatamente na hora marcada, e ela me invadiu de novo. Não tremi desta vez como na outra: resolvi usá-la como ela sempre me usou. Fomos a um local afastado, e – antes de chegarmos – ela me implorava pra chupar meu pau. Eu respondia calado com a mão debaixo da saia dela, enquanto ela gemia baixinho.

Paramos, abri meu zíper e beijei sua boca antes dela me chupar. Esporrei na boca dela, logo antes de ela procurar uma camisinha em algum lugar do carro. Abri a porta do carro enquanto beijava sua boca lambendo minha própria porra. Joguei sua mala pra fora, a empurrei pra fora e dirigi pra casa. Depois de limpar aquelas últimas gotas da boca dela, comecei – medroso e excitado – a imaginar qual seria a reação dela…

Já não era nem um pouco cedo, e eu tinha os olhos marejados de fumaça de cigarro, meio fechados da cachaça e da cerveja que vinha tomando. Eu sentia os sons de forma mais intensa que as imagens, e o ritmo não ficava só em minhas orelhas, mas também queria vazar pelos ombros e pelos quadris. Toda aquela crítica hype-neo-blasé que circula, toda cara feia que fazemos pra modismos, toda empertigação com ritmos novos, quem copia de quem… isso tudo estava ali, mas tudo isso me importava menos que as cinzas de cigarro no cinzeiro da mesa. Eu, com jeitão de europeu de cintura travada, só tinha vontade de levantar e sambar um pouco, e mais um pouco, e depois experimentar mais um gole de cerveja.

Às vezes me impressiono com a diferença que faz um pouco de música ao vivo, sabe? Mesmo com tecnologias que vão se modificando mais rápido do que meu copo se esvazia, mesmo com governos e gravadoras brigando contra os programas de compartilhamento, mesmo com artistas que sabem se colocar com uma postura legal na internet. Mesmo assim, cá entre nós, não há o que substitua uma roda de samba em um bar numa esquina qualquer. Enquanto existir um músico, tradicional ou pós-moderno que seja, vai existir um grupo de bêbados dispostos a lhe pagar pra ouví-lo tocar.

E ali estávamos nós três, em um bar numa esquina qualquer: eu, ela e o grupo de samba. Sim, havia uma pequena multidão ao nosso redor, suando e se balançando ao som frenético do samba. Eu olhava para os lados, vendo toda aquela multidão como um borrão de cores pastéis, mas distinguia com inigualável precisão a expressão do rosto de cada um dos meus melhores amigos, naquele momento: os quatro músicos. Distinguia que estavam em um pequeno palco de madeira, a uns vinte centímetros acima do solo… Que diabo de coisa pra se pensar é essa? Quatro músicos, vinte centímetros do assoalho, duzentos mililitros de cerveja em um copo, seiscentos em uma garrafa, cento e dez decibéis de volume, cinqüenta pessoas no bar, dez reais de couvert por pessoa.

Desviei os olhos do palco, mirei a parede do lugar, pintada de mínimas, semínimas, semicolcheias, claves de sol e de fá, senti meu corpo oscilando na cadeira e me virei pra ela, que me olhava sorridente. Vi seus lábios se mexendo, e sabia que ela estava pensando algo, ou talvez tentando me dizer algo. Mais provavelmente, estava pensando em algo que gostaria de me dizer, mas sabia que eu não ouvia, grudados que estávamos ao palco, em que as caixas de som balançavam e tremiam com seus decibéis. A posição exata em que estávamos continua um mistério pra mim, aliás, me parece tanto mais difícil definir de que jeito estávamos, quanto mais penso no assunto. De uma única coisa tenho certeza: nossos rostos estavam muito próximos, próximos o bastante pra nos beijarmos, se nos inclinássemos um pouco para frente. Se um de nós desse uma boa gargalhada – daquelas em que o pescoço se estica para trás, os ombros sobem e se juntam, e o corpo todo vai para frente, com a contração da barriga –, então seu rosto se afundaria no ombro do outro, aconchegante.

Eu olhava para ela com a cabeça jogada de lado, e forçava alguma frase a aparecer na minha cabeça, alguma piadinha infame, qualquer conjunto de palavras que fizesse algum sentido. Ela me olhava do fundo de seus olhos escuros e meio fechados. Eu poderia jurar que ela adivinhava que eu me sentia desconexo, mas me esforçava pra articular qualquer coisa. Ela parecia gostar desse meu esforço, saborear o jeito como eu me encontrava desprotegido ali naquele momento, e me sorria de volta, como que me liberando daquela angústia e esforço todo. Sorria de um jeito tão relaxado e despreocupado como eu nunca pude me imaginar sorrindo. E foi nesse sorriso que me apaixonei por ela – algo como um amor condensado na duração de um sorriso. Ela já me ganhara quando se sentou ao meu lado (o bar ainda estava vazio) e me disse que ninguém deveria ser deixado sozinho com olhos tão desolados como os meus.

Nesse momento me encolhi de vergonha, como um garoto de cinco anos que havia sido adivinhado duas vezes pelo mesmo adulto. Sorri pra mim mesmo, e devo ter ficado vermelho, porque ela correu seus dedos por minha nuca até meu queixo. Franzi a testa, torci o nariz, me desvencilhei com algum cuidado de seus carinhos, e saboreei bem na boca do meu estômago um calor de raiva que aquela condescendência toda me causou. Foi uma sensação que me veio de repente, essa de raiva. Pode ter sido aquele gesto dela o gatilho da raiva, mas aquilo cresceu em um segundo e se juntou ao caldeirão de cores quentes e escuras de que meu sangue é feito. Tive raiva de todos e cada um que estava naquela multidão, tive raiva dos beberrões que haviam escrito aqueles sambas, tive raiva do dinheiro que eu pagaria aos sambistas, e tive raiva daquela mulher linda. Olhei de volta pra ela, de olhos arregalados, e vi que estava entretida com as performances do senhor de cabelos longos que tocava o pandeiro. Juntei minhas forças e me levantei pra ir ao banheiro.

Apoiei-me nos encostos das cadeiras, pra não balançar com a tonteira que tive ao me levantar tão rápido. Olhava para o chão, e tentei me esquivar das luzes do palco, que estava muito próximo de nossa mesa. Trombei nos ombros de um rapaz que estava de pé ao lado do palco, e murmurei um pedido de desculpas com um assentido de cabeça, mas não esperei pra ver qual era a resposta dele. Fui direto para o banheiro, caminhando rápido. Por sorte, uma garota alta de cabelos longos saiu pela porta que eu estava prestes a abrir, me indicando que aquele era o banheiro feminino. Sorri sem graça pra ela, que não entendeu nada.

Tentei ser rápido no meio daquela multidão toda que sambava nervosamente, mas não tinha idéia de onde me esconder. Puxei a manga da camisa de um garçom que estava ao meu alcance e lhe disse bem alto: banheiro! Ele simplesmente desviou o olhar tedioso e me indicou a portinha com um bonequinho desenhado na porta. Já é tradicional o movimento feminino em que duas ou mais mulheres se levantam juntas pra fazer sabe-se lá o que juntas no banheiro. Na minha experiência pessoal, banheiros (de bar, de empresas, ou da escola) sempre serviram como uma pausa, quase como em um jogo eletrônico: você se levanta e corre pra zona neutra que o banheiro masculino é. Acontece que as conversas masculinas são comumente muito pouco produtivas, e tendem aos assuntos manjados: quem quer comer quem, os peitos dessa mulher, ou a bunda daquela.

Quando cheguei ao banheiro, fiquei um pouco na fila do mictório, olhando no espelho minha cara amarrotada de bebida. Ouvia dois amigos que conversavam ao mesmo tempo que mijavam, mas não consegui distinguir o que diziam, ou qual era o assunto sobre o qual conversavam com um tom de leve reclamação. Tentei me lembrar porque havia vindo a esse bar, afinal de contas. Cheguei ao mictório sem vontade alguma, mas senti um alívio inigualável quando comecei a mijar. Talvez aquela raiva que me bateu fosse só uma bexiga cheia, algo parecido com os intestinos alemães de que Nietzsche falava, ou talvez essa conclusão fosse só uma divagação inútil de um bêbado em um banheiro de bar. Fiquei um bom tempo naquela posição típica de alívio, e olhei de lado com o canto do olho, enquanto disse ao rapaz que estava no mictório ao lado: quanto alívio! ufa! Quase não reparei que era o rapaz em quem eu tinha esbarrado no caminho para o banheiro.

Ali no banheiro o som do samba soava abafado, com os agudos quase sumidos, e graves que ecoavam de um jeito muito pouco agradável. A luminosidade incomodava, porque o ambiente principal tinha só uma meia-luz e os holofotes voltados para o palco. Pensei nisso enquanto olhava pro rapaz ao lado, e reparei que ele também me olhava. Subi meu zíper com um pouco de pressa, e fiz um gesto com a cabeça para ele, enquanto saia do banheiro. Quando atravessei a porta, fiquei zonzo com o barulho e a zoeira do samba, e precisei de alguns segundos pra tomar controle dos sentidos e procurar minha mesa. Será que a garota ainda estaria lá ou já teria ido embora me deixando com a conta?

Enquanto imaginava o que teria se passado com ela nessa minha ida ao banheiro, reparei que os borrões de cores pastéis estavam adquirindo rostos e feições. Sorri pra uma garota bonita que sambava em meu caminho, e ela me sorriu de volta maliciosamente. Tropecei em uma cadeira que agora há pouco não estava ali, perdi o equilíbrio e cai sentado no colo de alguém. Olhei em volta assustado, e reparei que tinha caído no colo dela, na mesa em que estávamos sentados. Passei meus braços ao redor do pescoço dela – que estava um pouco assustada –, e dei-lhe um beijo molhado e lento, enquanto acariciava seu rosto com uma de minhas mãos. Ela enfiou uma de suas mãos por baixo de minha blusa, e acariciou meu peito levemente com as pontas dos dedos, enquanto apertava minha cintura com o outro braço.

Distanciei devagar meu rosto do dela, deixei meus olhos fechados, minhas mãos sobre seu rosto, e fiquei desenhando no ar as curvas do corpo dela de olhos fechados. Ela me abraçou de leve, e depois me empurrou. Abri os olhos e me levantei com calma, só pra cair pesadamente sobre minha cadeira, em frente a um copo vazio de cerveja. Olhei aquele copo, tentando lembrar se o havia deixado nessa mesma posição, e se antes estava cheio ou vazio. Aquela barulheira ao meu redor parou de fazer sentido, toda gente que passava ao redor me parecia estranhamente distante, e eu quis conversar sobre qualquer coisa pouco importante com minha companheira de mesa. Virei o rosto em sua direção, e ela pôs sua boca em meu ouvido e disse, com sua voz rouca, que ia ao banheiro.

Por alguns segundos, divergi meu olhar desconfiado pelo cenário que me cercava: os músicos estavam fazendo um intervalo, permitindo-nos, também, um momento de sobriedade auditiva. Quando dei por mim, o rapaz do banheiro havia se sentado no lugar dela. Olhei pra ele tentando entender o que se passava, enquanto ele simplesmente tentava puxar conversa comigo. Dizia que beber sozinho era comportamento estatisticamente perigoso, e que havia vindo em meu socorro. Eu perguntei pra ele como diabos ele tinha lembrado de dados estatísticos a essa altura da noite, e ele me disse que era médico. Fiz cara de descrença, e lhe perguntei se as mulheres gostavam daquele papinho mole. Para conversar, precisávamos falar perto da orelha um do outro. Por isso, quando lhe deu um corte como aquele, ele só pôde sorrir sem graça e esfregar – de propósito – sua barba na minha quando nos afastamos.

Olhei ao redor, procurando inutilmente a mulher linda que me beijara alguns minutos antes. Por um momento (que foram horas de reflexão pra mim), hesitei, olhando fixamente nos olhos do rapaz à minha frente. Era simpático, ruim de papo e – o pior de tudo! – era médico. Procurei em algum lugar de minha mente um motivo qualquer pra ter chegado ali, algo que teria me atraído no bar, algum estresse no trabalho desse dia. Uma garota esfregou suas nádegas em meu ombro, enquanto passava por ali, e me arrancou de qualquer pensamento que eu tivesse. Olhei pra ela, e vi que era a tal mulher linda (qual será seu nome?). Ela apontou para o palco, em que os músicos se arrumavam, ap voltarem do intervalo. Resolvi não perder tempo: passei meus dedos na nuca do rapaz – que nos olhava, com jeito confuso –, e puxei com força sua boca em direção à minha.

Só em situações extremamente críticas é que as reflexões interessantes acontecem. Falo isso como quem recita o enunciado de um teorema matemático, demonstrável logicamente. Daria na mesma dizer que é uma afirmação cientificamente testada… Quando será que essa tal de ciência ganhou tanta força como argumento de autoridade? Aliás, parecem-me igualmente irracionais: tanto os argumentos científicos quanto os emocionais.

 

- Porra, não acredito que você vai ficar em casa nesse seu estado depressivo!

 

Conhecedora que era da minha falta de reação a argumentos científicos, ela tentou o emocional… E eu respondia a minha novíssima amiga e companheira de noitadas filosoficamente etílicas, que ela podia começar a acreditar. Eu havia passado por uma semana cansativa de trabalho, e parei vezes demais pra pensar a respeito do quanto trabalhar estava cansativo. Sinceramente, preciso aprender a não pensar muito, especialmente logo depois de um longo dia de trabalho com dores de cabeça, brigas mesquinhas e pendências que parecem se arrastar indefinidamente.

 

Normalmente, a Babi não insiste quando digo que não quero sair, mas – normalmente – eu nego fogo com um pouco mais de autoridade do que meu atual estado emocional me permitia. Acho que ela deve ter sentido o cheiro de frescura em cada um dos fonemas dizendo:

 

- Ô Babi… É triste, mas você acredita que eu vou te dar um bolo?

 

Sentiu um cheirinho de dipirona sódica tampando minha dor de cabeça, percebeu que eu estava morrendo de preguiça, que eu havia acabado de tomar um banho, que eu estava de toalha e que eu estava morrendo de vontade de dormir.

 

- Se liga! Sábado a noite e eu nem tô ouvindo som alto aí, cara! Sai dessa!

 

Eu sinceramente acreditava em tudo o que havia pensado em meus maus momentos da semana. Eu sabia no fundo do meu coração que eu ia me arrepender de gastar grana, que a ressaca ia ser uma merda, que eu podia bater meu carro, que alguma baranga podia me achar lindo… ou pior: que eu podia achar alguma baranga linda.

 

Não valia a pena ouví-la, especialmente com esse apelo emocional, tão obviamente mal-fundamentado como qualquer argumento científico ou matemático. Desencostei levemente o telefone de meu rosto, e dei meio passo em direção à sacada. Senti um vento leve batendo em minhas costas, e pude ouvir os carros passando nas ruas lá embaixo. Várias luzes: algumas estáticas, outras móveis. Do outro lado do parapeito eu via uma cidade calma e comedida, uma noite absurdamente confortável para se deitar e dormir. Tudo dormia ali. Não pude mais hesitar:

 

- Babi? Te pego em meia hora. Cê leva uma vodka?

 

~~~~

 

Lotado, barulhento, esfumaçado, barato e mal-ventilado. Metade da garrafa de vodka havia ficado no carro, a outra metade eu e Babi bebericamos sem acompanhamentos.

 

Apesar do efeito pouco excitante que, em geral, ela possa vir a ter, creio que aqui cabe uma breve explicação sobre minha relação com Babi. Éramos amigos, do tipo que dançam bêbados até o fim da festa. Sim, nós já tivemos oportunidades de aliviar nossa tensão sexual, mas por algum motivo idiota nunca o fizemos. Digamos que a tensão sexual parecia servir pra dar um gostinho especial à amizade, desde que nós dois pudéssemos fingir que a tensão não estava ali. O problema era que, bem, nós não fingíamos… só fingíamos que fingíamos.

 

Tomemos o inferninho em questão: um lugar em que nenhum idiota do trabalho iria surgir me perguntando a respeito do andamento de algum projeto de merda. Mesmo que eu encontrasse alguém conhecido por ali, não seria a mesma pessoa. E era assim comigo e Babi: ali não éramos amigos, mas fingíamos muito bem!

 

- Mais uma dose, amiguinho?

- Olha Babi, eu vou te dar uma dose de…

 

E nos agarrávamos, e nos beijávamos, e ela acariciava meu pau por dentro da calça. Alguém nos empurrava, nos separávamos e – sem sequer olhar um no rosto do outro (eu nunca olhei pra saber se ela me olhava) – continuávamos a conversa:

 

- Então, Babi, pode ser de tequila?

- Opa! Abafa o caso com tequila!

 

~~~~

 

Eu sentia o calor dos corpos que pulavam e rebolavam grudados ao meu. Ficava difícil distinguir o meu corpo dos outros. Talvez não fosse exatamente como um contato sexual, mas era quase. Eu andava cambaleante entre pessoas que se agarravam dentro daquele ambiente sufocante. Eu me sentia sufocar pelo ambiente e pelo desconforto constante que a vodka sempre me causava no estômago. Meus pés sentiam a textura do chão úmido e escorregadio, e eu me esforçava pra não cair enquanto tropeçava nos pés alheios espalhados pelo caminho.

 

E lá estava eu em mais um daqueles terríveis momentos de reflexão. Logo eu, que sabia tão bem que não devia pensar demais. Não enxergava, mas sentia a pressão forte que aqueles casais se agarrando faziam em mim. O som de rock pós-pseudo-alternativo-não-tô-nem-me-fudendo-pro-estilo é mesmo perfeito pra momentos assim. E aquela vocalista de vozinha melosa estridente tinha uns olhos tão lindos que eu tinha de ver de perto!

 

Enquanto eu caminhava sentia um sufoco de não conseguir respirar. Precisava de uma boca grudada na minha pra respirar. Precisava olhar de perto os olhinhos daquela vocalista melancólica. Precisava me manter de pé e andar até o palco.

 

Tropecei em alguém, que me pediu desculpas pelo tropeção. Quando olhei em sua direção pude ver uma coisa brilhante por trás daquelas nuvens de fumaça de cigarro. Eu não sabia se era brilho nos olhos ou de algum brinco. Franzi a testa, espremi os olhos, estiquei o indicador e me movi lentamente em direção ao pequeno brilho que permanecia constante, no meio daquela imensidão de luzes piscantes e coloridas.

 

Felizmente, o brilho também veio em minha direção. Me deu um beijo molhado e me apertou junto de seu corpo mais quente que o ar fedido. Eu senti que tinha de esticar o pescoço pra alcançar aquela boca pequena, e que ela apertava forte seu peito contra o meu. Senti meus braços se entregarem ao abraço dela. Eles foram se abaixando lentamente, abandonados junto ao meu corpo. Estiquei meus pés pra projetar meu rosto contra o dela e escapar da sua boca. Tentei formular alguma sacanice pra dizer, ou sussurrar, mas se afastou com um susto e parecia tentar focalizar seu olhar em meu rosto.

 

Não era hora de pensar.

 

Forcei meus braços a se moverem rápido. Agarrei sua cintura e sua nuca, projetei meu corpo pra junto do dela. Tentei evitar qualquer espaço ou tempo pra que ela pudesse pensar. Ela reagiu lentamente. Enlaçou seus braços em meu pescoço enquanto enfiava uma das mãos pela gola de minha camiseta, me acariciando a nuca e as costas.

 

Não pude evitar que ela pensasse.

 

Ela abriu os olhos enquanto nos beijávamos, e se afastou lentamente. Olhou pra mim como uma criança que sabe que fez algo de errado e disse, linda:

 

- Ai! Me desculpa por ter te beijado?

 

~~~~

 

Babi me encontrou sentado em um dos sofás, espremido entre dois casais que se agarravam. Ela apoiou suas mãos em mim, uma em cada ombro. Se aproximou com muita calma, e eu podia jurar que ela tinha algo de muito grave e importante para me dizer. Estiquei meu pescoço e virei minha cabeça levemente de lado, oferecendo meu meu ouvido. Ela pareceu não gostar daquilo.

 

Ela me empurrou pra trás, se sentou em meu colo, agarrou meu queixo com uma das mãos e me beijou forte.

 

Eu e Babi éramos mesmo muito bons amigos. Sabíamos muito bem reconhecer os momentos em que devíamos não pensar em nada.