Já não era nem um pouco cedo, e eu tinha os olhos marejados de fumaça de cigarro, meio fechados da cachaça e da cerveja que vinha tomando. Eu sentia os sons de forma mais intensa que as imagens, e o ritmo não ficava só em minhas orelhas, mas também queria vazar pelos ombros e pelos quadris. Toda aquela crítica hype-neo-blasé que circula, toda cara feia que fazemos pra modismos, toda empertigação com ritmos novos, quem copia de quem… isso tudo estava ali, mas tudo isso me importava menos que as cinzas de cigarro no cinzeiro da mesa. Eu, com jeitão de europeu de cintura travada, só tinha vontade de levantar e sambar um pouco, e mais um pouco, e depois experimentar mais um gole de cerveja.
Às vezes me impressiono com a diferença que faz um pouco de música ao vivo, sabe? Mesmo com tecnologias que vão se modificando mais rápido do que meu copo se esvazia, mesmo com governos e gravadoras brigando contra os programas de compartilhamento, mesmo com artistas que sabem se colocar com uma postura legal na internet. Mesmo assim, cá entre nós, não há o que substitua uma roda de samba em um bar numa esquina qualquer. Enquanto existir um músico, tradicional ou pós-moderno que seja, vai existir um grupo de bêbados dispostos a lhe pagar pra ouví-lo tocar.
E ali estávamos nós três, em um bar numa esquina qualquer: eu, ela e o grupo de samba. Sim, havia uma pequena multidão ao nosso redor, suando e se balançando ao som frenético do samba. Eu olhava para os lados, vendo toda aquela multidão como um borrão de cores pastéis, mas distinguia com inigualável precisão a expressão do rosto de cada um dos meus melhores amigos, naquele momento: os quatro músicos. Distinguia que estavam em um pequeno palco de madeira, a uns vinte centímetros acima do solo… Que diabo de coisa pra se pensar é essa? Quatro músicos, vinte centímetros do assoalho, duzentos mililitros de cerveja em um copo, seiscentos em uma garrafa, cento e dez decibéis de volume, cinqüenta pessoas no bar, dez reais de couvert por pessoa.
Desviei os olhos do palco, mirei a parede do lugar, pintada de mínimas, semínimas, semicolcheias, claves de sol e de fá, senti meu corpo oscilando na cadeira e me virei pra ela, que me olhava sorridente. Vi seus lábios se mexendo, e sabia que ela estava pensando algo, ou talvez tentando me dizer algo. Mais provavelmente, estava pensando em algo que gostaria de me dizer, mas sabia que eu não ouvia, grudados que estávamos ao palco, em que as caixas de som balançavam e tremiam com seus decibéis. A posição exata em que estávamos continua um mistério pra mim, aliás, me parece tanto mais difícil definir de que jeito estávamos, quanto mais penso no assunto. De uma única coisa tenho certeza: nossos rostos estavam muito próximos, próximos o bastante pra nos beijarmos, se nos inclinássemos um pouco para frente. Se um de nós desse uma boa gargalhada – daquelas em que o pescoço se estica para trás, os ombros sobem e se juntam, e o corpo todo vai para frente, com a contração da barriga –, então seu rosto se afundaria no ombro do outro, aconchegante.
Eu olhava para ela com a cabeça jogada de lado, e forçava alguma frase a aparecer na minha cabeça, alguma piadinha infame, qualquer conjunto de palavras que fizesse algum sentido. Ela me olhava do fundo de seus olhos escuros e meio fechados. Eu poderia jurar que ela adivinhava que eu me sentia desconexo, mas me esforçava pra articular qualquer coisa. Ela parecia gostar desse meu esforço, saborear o jeito como eu me encontrava desprotegido ali naquele momento, e me sorria de volta, como que me liberando daquela angústia e esforço todo. Sorria de um jeito tão relaxado e despreocupado como eu nunca pude me imaginar sorrindo. E foi nesse sorriso que me apaixonei por ela – algo como um amor condensado na duração de um sorriso. Ela já me ganhara quando se sentou ao meu lado (o bar ainda estava vazio) e me disse que ninguém deveria ser deixado sozinho com olhos tão desolados como os meus.
Nesse momento me encolhi de vergonha, como um garoto de cinco anos que havia sido adivinhado duas vezes pelo mesmo adulto. Sorri pra mim mesmo, e devo ter ficado vermelho, porque ela correu seus dedos por minha nuca até meu queixo. Franzi a testa, torci o nariz, me desvencilhei com algum cuidado de seus carinhos, e saboreei bem na boca do meu estômago um calor de raiva que aquela condescendência toda me causou. Foi uma sensação que me veio de repente, essa de raiva. Pode ter sido aquele gesto dela o gatilho da raiva, mas aquilo cresceu em um segundo e se juntou ao caldeirão de cores quentes e escuras de que meu sangue é feito. Tive raiva de todos e cada um que estava naquela multidão, tive raiva dos beberrões que haviam escrito aqueles sambas, tive raiva do dinheiro que eu pagaria aos sambistas, e tive raiva daquela mulher linda. Olhei de volta pra ela, de olhos arregalados, e vi que estava entretida com as performances do senhor de cabelos longos que tocava o pandeiro. Juntei minhas forças e me levantei pra ir ao banheiro.
Apoiei-me nos encostos das cadeiras, pra não balançar com a tonteira que tive ao me levantar tão rápido. Olhava para o chão, e tentei me esquivar das luzes do palco, que estava muito próximo de nossa mesa. Trombei nos ombros de um rapaz que estava de pé ao lado do palco, e murmurei um pedido de desculpas com um assentido de cabeça, mas não esperei pra ver qual era a resposta dele. Fui direto para o banheiro, caminhando rápido. Por sorte, uma garota alta de cabelos longos saiu pela porta que eu estava prestes a abrir, me indicando que aquele era o banheiro feminino. Sorri sem graça pra ela, que não entendeu nada.
Tentei ser rápido no meio daquela multidão toda que sambava nervosamente, mas não tinha idéia de onde me esconder. Puxei a manga da camisa de um garçom que estava ao meu alcance e lhe disse bem alto: banheiro! Ele simplesmente desviou o olhar tedioso e me indicou a portinha com um bonequinho desenhado na porta. Já é tradicional o movimento feminino em que duas ou mais mulheres se levantam juntas pra fazer sabe-se lá o que juntas no banheiro. Na minha experiência pessoal, banheiros (de bar, de empresas, ou da escola) sempre serviram como uma pausa, quase como em um jogo eletrônico: você se levanta e corre pra zona neutra que o banheiro masculino é. Acontece que as conversas masculinas são comumente muito pouco produtivas, e tendem aos assuntos manjados: quem quer comer quem, os peitos dessa mulher, ou a bunda daquela.
Quando cheguei ao banheiro, fiquei um pouco na fila do mictório, olhando no espelho minha cara amarrotada de bebida. Ouvia dois amigos que conversavam ao mesmo tempo que mijavam, mas não consegui distinguir o que diziam, ou qual era o assunto sobre o qual conversavam com um tom de leve reclamação. Tentei me lembrar porque havia vindo a esse bar, afinal de contas. Cheguei ao mictório sem vontade alguma, mas senti um alívio inigualável quando comecei a mijar. Talvez aquela raiva que me bateu fosse só uma bexiga cheia, algo parecido com os intestinos alemães de que Nietzsche falava, ou talvez essa conclusão fosse só uma divagação inútil de um bêbado em um banheiro de bar. Fiquei um bom tempo naquela posição típica de alívio, e olhei de lado com o canto do olho, enquanto disse ao rapaz que estava no mictório ao lado: quanto alívio! ufa! Quase não reparei que era o rapaz em quem eu tinha esbarrado no caminho para o banheiro.
Ali no banheiro o som do samba soava abafado, com os agudos quase sumidos, e graves que ecoavam de um jeito muito pouco agradável. A luminosidade incomodava, porque o ambiente principal tinha só uma meia-luz e os holofotes voltados para o palco. Pensei nisso enquanto olhava pro rapaz ao lado, e reparei que ele também me olhava. Subi meu zíper com um pouco de pressa, e fiz um gesto com a cabeça para ele, enquanto saia do banheiro. Quando atravessei a porta, fiquei zonzo com o barulho e a zoeira do samba, e precisei de alguns segundos pra tomar controle dos sentidos e procurar minha mesa. Será que a garota ainda estaria lá ou já teria ido embora me deixando com a conta?
Enquanto imaginava o que teria se passado com ela nessa minha ida ao banheiro, reparei que os borrões de cores pastéis estavam adquirindo rostos e feições. Sorri pra uma garota bonita que sambava em meu caminho, e ela me sorriu de volta maliciosamente. Tropecei em uma cadeira que agora há pouco não estava ali, perdi o equilíbrio e cai sentado no colo de alguém. Olhei em volta assustado, e reparei que tinha caído no colo dela, na mesa em que estávamos sentados. Passei meus braços ao redor do pescoço dela – que estava um pouco assustada –, e dei-lhe um beijo molhado e lento, enquanto acariciava seu rosto com uma de minhas mãos. Ela enfiou uma de suas mãos por baixo de minha blusa, e acariciou meu peito levemente com as pontas dos dedos, enquanto apertava minha cintura com o outro braço.
Distanciei devagar meu rosto do dela, deixei meus olhos fechados, minhas mãos sobre seu rosto, e fiquei desenhando no ar as curvas do corpo dela de olhos fechados. Ela me abraçou de leve, e depois me empurrou. Abri os olhos e me levantei com calma, só pra cair pesadamente sobre minha cadeira, em frente a um copo vazio de cerveja. Olhei aquele copo, tentando lembrar se o havia deixado nessa mesma posição, e se antes estava cheio ou vazio. Aquela barulheira ao meu redor parou de fazer sentido, toda gente que passava ao redor me parecia estranhamente distante, e eu quis conversar sobre qualquer coisa pouco importante com minha companheira de mesa. Virei o rosto em sua direção, e ela pôs sua boca em meu ouvido e disse, com sua voz rouca, que ia ao banheiro.
Por alguns segundos, divergi meu olhar desconfiado pelo cenário que me cercava: os músicos estavam fazendo um intervalo, permitindo-nos, também, um momento de sobriedade auditiva. Quando dei por mim, o rapaz do banheiro havia se sentado no lugar dela. Olhei pra ele tentando entender o que se passava, enquanto ele simplesmente tentava puxar conversa comigo. Dizia que beber sozinho era comportamento estatisticamente perigoso, e que havia vindo em meu socorro. Eu perguntei pra ele como diabos ele tinha lembrado de dados estatísticos a essa altura da noite, e ele me disse que era médico. Fiz cara de descrença, e lhe perguntei se as mulheres gostavam daquele papinho mole. Para conversar, precisávamos falar perto da orelha um do outro. Por isso, quando lhe deu um corte como aquele, ele só pôde sorrir sem graça e esfregar – de propósito – sua barba na minha quando nos afastamos.
Olhei ao redor, procurando inutilmente a mulher linda que me beijara alguns minutos antes. Por um momento (que foram horas de reflexão pra mim), hesitei, olhando fixamente nos olhos do rapaz à minha frente. Era simpático, ruim de papo e – o pior de tudo! – era médico. Procurei em algum lugar de minha mente um motivo qualquer pra ter chegado ali, algo que teria me atraído no bar, algum estresse no trabalho desse dia. Uma garota esfregou suas nádegas em meu ombro, enquanto passava por ali, e me arrancou de qualquer pensamento que eu tivesse. Olhei pra ela, e vi que era a tal mulher linda (qual será seu nome?). Ela apontou para o palco, em que os músicos se arrumavam, ap voltarem do intervalo. Resolvi não perder tempo: passei meus dedos na nuca do rapaz – que nos olhava, com jeito confuso –, e puxei com força sua boca em direção à minha.