Só em situações extremamente críticas é que as reflexões interessantes acontecem. Falo isso como quem recita o enunciado de um teorema matemático, demonstrável logicamente. Daria na mesma dizer que é uma afirmação cientificamente testada… Quando será que essa tal de ciência ganhou tanta força como argumento de autoridade? Aliás, parecem-me igualmente irracionais: tanto os argumentos científicos quanto os emocionais.

 

- Porra, não acredito que você vai ficar em casa nesse seu estado depressivo!

 

Conhecedora que era da minha falta de reação a argumentos científicos, ela tentou o emocional… E eu respondia a minha novíssima amiga e companheira de noitadas filosoficamente etílicas, que ela podia começar a acreditar. Eu havia passado por uma semana cansativa de trabalho, e parei vezes demais pra pensar a respeito do quanto trabalhar estava cansativo. Sinceramente, preciso aprender a não pensar muito, especialmente logo depois de um longo dia de trabalho com dores de cabeça, brigas mesquinhas e pendências que parecem se arrastar indefinidamente.

 

Normalmente, a Babi não insiste quando digo que não quero sair, mas – normalmente – eu nego fogo com um pouco mais de autoridade do que meu atual estado emocional me permitia. Acho que ela deve ter sentido o cheiro de frescura em cada um dos fonemas dizendo:

 

- Ô Babi… É triste, mas você acredita que eu vou te dar um bolo?

 

Sentiu um cheirinho de dipirona sódica tampando minha dor de cabeça, percebeu que eu estava morrendo de preguiça, que eu havia acabado de tomar um banho, que eu estava de toalha e que eu estava morrendo de vontade de dormir.

 

- Se liga! Sábado a noite e eu nem tô ouvindo som alto aí, cara! Sai dessa!

 

Eu sinceramente acreditava em tudo o que havia pensado em meus maus momentos da semana. Eu sabia no fundo do meu coração que eu ia me arrepender de gastar grana, que a ressaca ia ser uma merda, que eu podia bater meu carro, que alguma baranga podia me achar lindo… ou pior: que eu podia achar alguma baranga linda.

 

Não valia a pena ouví-la, especialmente com esse apelo emocional, tão obviamente mal-fundamentado como qualquer argumento científico ou matemático. Desencostei levemente o telefone de meu rosto, e dei meio passo em direção à sacada. Senti um vento leve batendo em minhas costas, e pude ouvir os carros passando nas ruas lá embaixo. Várias luzes: algumas estáticas, outras móveis. Do outro lado do parapeito eu via uma cidade calma e comedida, uma noite absurdamente confortável para se deitar e dormir. Tudo dormia ali. Não pude mais hesitar:

 

- Babi? Te pego em meia hora. Cê leva uma vodka?

 

~~~~

 

Lotado, barulhento, esfumaçado, barato e mal-ventilado. Metade da garrafa de vodka havia ficado no carro, a outra metade eu e Babi bebericamos sem acompanhamentos.

 

Apesar do efeito pouco excitante que, em geral, ela possa vir a ter, creio que aqui cabe uma breve explicação sobre minha relação com Babi. Éramos amigos, do tipo que dançam bêbados até o fim da festa. Sim, nós já tivemos oportunidades de aliviar nossa tensão sexual, mas por algum motivo idiota nunca o fizemos. Digamos que a tensão sexual parecia servir pra dar um gostinho especial à amizade, desde que nós dois pudéssemos fingir que a tensão não estava ali. O problema era que, bem, nós não fingíamos… só fingíamos que fingíamos.

 

Tomemos o inferninho em questão: um lugar em que nenhum idiota do trabalho iria surgir me perguntando a respeito do andamento de algum projeto de merda. Mesmo que eu encontrasse alguém conhecido por ali, não seria a mesma pessoa. E era assim comigo e Babi: ali não éramos amigos, mas fingíamos muito bem!

 

- Mais uma dose, amiguinho?

- Olha Babi, eu vou te dar uma dose de…

 

E nos agarrávamos, e nos beijávamos, e ela acariciava meu pau por dentro da calça. Alguém nos empurrava, nos separávamos e – sem sequer olhar um no rosto do outro (eu nunca olhei pra saber se ela me olhava) – continuávamos a conversa:

 

- Então, Babi, pode ser de tequila?

- Opa! Abafa o caso com tequila!

 

~~~~

 

Eu sentia o calor dos corpos que pulavam e rebolavam grudados ao meu. Ficava difícil distinguir o meu corpo dos outros. Talvez não fosse exatamente como um contato sexual, mas era quase. Eu andava cambaleante entre pessoas que se agarravam dentro daquele ambiente sufocante. Eu me sentia sufocar pelo ambiente e pelo desconforto constante que a vodka sempre me causava no estômago. Meus pés sentiam a textura do chão úmido e escorregadio, e eu me esforçava pra não cair enquanto tropeçava nos pés alheios espalhados pelo caminho.

 

E lá estava eu em mais um daqueles terríveis momentos de reflexão. Logo eu, que sabia tão bem que não devia pensar demais. Não enxergava, mas sentia a pressão forte que aqueles casais se agarrando faziam em mim. O som de rock pós-pseudo-alternativo-não-tô-nem-me-fudendo-pro-estilo é mesmo perfeito pra momentos assim. E aquela vocalista de vozinha melosa estridente tinha uns olhos tão lindos que eu tinha de ver de perto!

 

Enquanto eu caminhava sentia um sufoco de não conseguir respirar. Precisava de uma boca grudada na minha pra respirar. Precisava olhar de perto os olhinhos daquela vocalista melancólica. Precisava me manter de pé e andar até o palco.

 

Tropecei em alguém, que me pediu desculpas pelo tropeção. Quando olhei em sua direção pude ver uma coisa brilhante por trás daquelas nuvens de fumaça de cigarro. Eu não sabia se era brilho nos olhos ou de algum brinco. Franzi a testa, espremi os olhos, estiquei o indicador e me movi lentamente em direção ao pequeno brilho que permanecia constante, no meio daquela imensidão de luzes piscantes e coloridas.

 

Felizmente, o brilho também veio em minha direção. Me deu um beijo molhado e me apertou junto de seu corpo mais quente que o ar fedido. Eu senti que tinha de esticar o pescoço pra alcançar aquela boca pequena, e que ela apertava forte seu peito contra o meu. Senti meus braços se entregarem ao abraço dela. Eles foram se abaixando lentamente, abandonados junto ao meu corpo. Estiquei meus pés pra projetar meu rosto contra o dela e escapar da sua boca. Tentei formular alguma sacanice pra dizer, ou sussurrar, mas se afastou com um susto e parecia tentar focalizar seu olhar em meu rosto.

 

Não era hora de pensar.

 

Forcei meus braços a se moverem rápido. Agarrei sua cintura e sua nuca, projetei meu corpo pra junto do dela. Tentei evitar qualquer espaço ou tempo pra que ela pudesse pensar. Ela reagiu lentamente. Enlaçou seus braços em meu pescoço enquanto enfiava uma das mãos pela gola de minha camiseta, me acariciando a nuca e as costas.

 

Não pude evitar que ela pensasse.

 

Ela abriu os olhos enquanto nos beijávamos, e se afastou lentamente. Olhou pra mim como uma criança que sabe que fez algo de errado e disse, linda:

 

- Ai! Me desculpa por ter te beijado?

 

~~~~

 

Babi me encontrou sentado em um dos sofás, espremido entre dois casais que se agarravam. Ela apoiou suas mãos em mim, uma em cada ombro. Se aproximou com muita calma, e eu podia jurar que ela tinha algo de muito grave e importante para me dizer. Estiquei meu pescoço e virei minha cabeça levemente de lado, oferecendo meu meu ouvido. Ela pareceu não gostar daquilo.

 

Ela me empurrou pra trás, se sentou em meu colo, agarrou meu queixo com uma das mãos e me beijou forte.

 

Eu e Babi éramos mesmo muito bons amigos. Sabíamos muito bem reconhecer os momentos em que devíamos não pensar em nada.

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